Loja 3, as denúncias e a sua autocrítica

O portal Universa colocou no ar nesta semana mais um caso de assédio de uma marca famosa que diz levar em seu DNA a diversidade e o cuidado por quem faz as roupas. Para quem já conhecia a proposta deve lembrar que em cada peça vendida, uma etiqueta com a foto da pessoa responsável por fazer a costura acompanhava a peça.

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Na matéria conta que 11 funcionárias foram ouvidos, além de pessoas que passaram pela empresa. As acusações são de racismo, homofobia, assédio moral, gordofobia e outras questões relacionadas aos direitos trabalhistas.

O que me chamou atenção até agora não foi nem o péssimo posicionamento da marca, mas a quantidade de pessoas que se mostraram indignadas por terem sido enganadas. Fiquei me perguntando a razão de não ter ficado surpresa com as denúncias. E a conclusão até aqui foi: o que a Loja 3 fez é uma consequência de um comportamento. Se eles fizeram isso, eu também sou parte do problema.

Não, eu não quero diminuir o crime deles. Longe disso. Mas meu ponto com isso é: existem sinais fundamentais para detectarmos um caso de greenwashing (esse termo é usado para explicar um “banho verde” que muitas marcas usam para se apropriar das questões sustentáveis, ou seja, limpar a sujeira, por isso estou usando aqui com essa liberdade). Não precisamos estar dentro das fábricas para percebermos eles. Para começar, se formos pensar na estrutura de marketing de vendas (pessoas, conceito e tudo que isso envolve), na logística, na criação das peças do conceito até confecção e custo das lojas físicas comparando com o preço final das peças… Já dá pra entender que a conta não fecha.

Foto que mostra parte da equipe, no site da loja.

Foto que mostra parte da equipe, no site da loja.

Em primeiro lugar: não é porque a marca diz que é responsável que ela realmente é. Já passou da hora de sermos autorresposáveis com as nossas escolhas e fazermos nossas próprias investigações. Se tivéssemos nos dado ao trabalho de fuçar um pouquinho mais, iríamos encontrar pontas soltas nesse processo.

Em segundo lugar: qual o seu papel nesse cenário? Eu pergunto para além de consumidora, mas como parte de uma sociedade. Tenho percebido uma migração em massa das pessoas para - teoricamente -, um movimento mais consciente, onde podemos escolher as marcas, ajudar o produtor local.

Acho que é importante, muito bonito, mas temos que ultrapassar isso, pra não cair na armadilha de apenas consumir do mesmo jeito, com a diferença que os produtos além de nos servirem, vão massagear nosso ego.

Esse tipo de comportamento de manada, em que mudamos o alvo do consumo e continuamos com a mesma mentalidade, faz com que continuemos perpetuando uma lógica de consumo da produção industrial. Em consequência, as marcas precisem baixar seus preços, viver de promoção para fechar o cálculo e negociar mal e porcamente com os fornecedores que em muitos casos são a costureira do bairro, a facção… É claro que o sistema ajuda a empresa a oprimir funcionários. A marca, pessoa, produtos que não quer cair nesse ciclo vicioso, precisa ter muito claro no seu DNA quais são seus princípios e manter seu alerta ligado sempre.

E eu não vou levantar a bandeira de que a culpa de ter usado a “3” eu não carrego. Pra mim, essa não é a questão. Pra mim o ponto crucial nessa equação é que no fim do dia, as pessoas que antes eram maltratadas no trabalho, possivelmente serão demitidas - e se a marca não respeitava os direitos trabalhistas antes, fico pensando depois de uma crise de imagem dessas, eles vão pagar todos os direitos dos que eventualmente saiam? Ou vão coagir as pessoas para que se demitam? Não sabemos.

E quanto a nós, que temos escolha, vamos APENAS deixar de comprar da “3” para olhar para outra marca que, em teoria, também é responsável? É “vida que segue” que se fala, né?

Cada dia isso faz mais sentido pra mim…

Cada dia isso faz mais sentido pra mim…

Será que a nossa postura não deveria ser repensada também? Que tal olhar para o seu armário e ao invés de ficar indignada com a “Loja 3”, fazer uma análise sobre as suas escolhas, quem você afeta com elas e testar outras formas de se relacionar com o mundo, as peças, a relação de trabalho e serviço?

Precisamos ir além de perguntar sobre quem faz as nossas roupas. Precisamos discutir se precisamos mesmo de pessoas trabalhando no modelo de produção industrial como esse para sustentar nossos caprichos. Precisamos refletir se é disso mesmo que se trata a vida…



CoerênciaBruna Neto