Você já ouviu a palavra do impacto social hoje?

Ando com essa sensação de que já não é o bastante simplesmente viver, ter presença, sentir-se bem, fazer algo que possa te sentido pra você sem que isso seja o projeto da sua vida.

Ultimamente o que me parece é que se você não estiver fazendo algo significativo para o mundo, para o ecossistema, mudando o mundo de alguma forma, você não é o suficiente. Me parece que apenas viver uma vida simples, valorizando momentos comuns do cotidiano não é o bastante. Se você não fizer algo que você possa contar para os outros que te transformou ou mudou a vida de alguém, você não é digno de ser admirável.

@cafedascoisinhas

@cafedascoisinhas

Vejo uma corrente de pessoas com relações superficiais usando as redes sociais pra falarem quanto admiram outras que só fazem alimentar mais e mais um estado de ego. Acho que por isso ando meio cansada da bolha do impacto social. Eu acredito sim que existem projetos muito importantes que podem causar impacto no mundo e precisam de luz para que nossa sociedade melhore.

Vejo o poder de tanta gente que resolve empreender questionando o status quo e fazem diferença para sociedade e também acompanho o trabalho que dá manter os negócios em pé. Mas o que eu também tenho notado é um movimento de pegar carona em tudo isso para justificar algo. Como se todo novo negócio precise ter no seu slogan impacto social, mas só da porta pra fora.

E quanto mais perto eu chego desse universo eu vejo quanto essas mensagens são apropriadas para pessoas que, na vida prática, não têm ética profissional e passam por cima de qualquer um para conseguir com que seu negócio de impacto social seja bem visto. Vejo pessoas que subiram de posto no “trabalho dos sonhos” assediando psicologicamente subordinados que até hoje vivem para ganhar sua atenção.

Enquanto isso também conheço pessoas penando para pagar as contas de seu brechó de bairro, por querer remunerar bem da costureira que arruma as roupas até não explorar os clientes no preço final das peças. Enquanto isso eu vejo mulheres com ideias maravilhosas que não conseguem bancar as contas da vida e não conseguem trabalhar em nenhuma empresa por não conseguir dividir os cuidados dos filhos.

Esse texto veio como desabafo depois de - na primeira vez que olhei no celular no dia - ver todas essas informações pipocarem no meu feed no Instagram. Me sinto cada vez mais conectada pessoalmente com pessoas que me inspiram. Ao mesmo tempo me sinto cada vez mais distante de um movimento que um dia acreditei que fosse real. Meu sentimento oscila todos os dias: de isolamento, para vontade de criar novos projetos que envolvam pessoas que não só precisam de visibilidade como podem transformar realmente seus “vilarejos”. Mas confesso que sempre que esbarro nesses sentimentos sinto uma vontade de parar tudo, entrar em qualquer empresa que me pague um salário e resolva as minhas contas no fim do mês.

O que eu sinto hoje é uma intoxicação de positividade superficial que esconde um mar de pessoas deprimidas e perdidas. E quando isso acontece ou eu escrevo ou eu sento na frente de uma árvore e fico pensando como deve ser viver sendo uma árvore.

A árvore não precisa se preocupar em causar impacto social. Ela é. Ela nasceu, vive a vida dela, é abrigo, é sombra, é ar…

Uma árvore simplesmente é. Sem que tenhamos que criar expectativas sobre ela. Uma árvore pode ou não gerar frutos. Isso não é seu, é dela. A árvore fica ali, parada e em movimento. Sentindo sol, chuva e vento. Ela simplesmente é. Sem ego, sem olhar pra outras árvores. Ela simplesmente é.

Quem dera eu pudesse aprender a ser um pouco árvore…

ConciênciaBruna Neto